{"id":107953,"date":"2018-05-23T17:55:33","date_gmt":"2018-05-23T20:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/?p=107953"},"modified":"2018-12-28T14:43:52","modified_gmt":"2018-12-28T16:43:52","slug":"%e2%80%98romance-de-formacao-funarte-e-politica-cultural-%e2%80%93-1976-%e2%80%93-1990%e2%80%99","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/?p=107953","title":{"rendered":"\u2018Romance de Forma\u00e7\u00e3o: Funarte e pol\u00edtica cultural \u2013 1976 &#8211; 1990\u2019"},"content":{"rendered":"<p>Na obra <em>Romance de Forma\u00e7\u00e3o: Funarte e pol\u00edtica cultural \u2013 1976 \u2013 1990 <\/em>(FCRB \u2013 2000)<em> <\/em><em>a<\/em> Doutora em A\u00e7\u00e3o Cultural e servidora do MinC e da Funarte, aposentada pela Biblioteca Nacional, Isaura Botelho, narra que nos anos 1970 e 80 a Funarte empregava recursos para a\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em parcerias \u201cbem enraizadas nas comunidades (universidades, bandas, etc.)\u201d e identificava \u201cinterlocutores leg\u00edtimos e capazes de reprocessar as dota\u00e7\u00f5es recebidas em atividade cultural pulsante\u201d. A consultora, pesquisadora e professora acrescenta que, ao observar documentos, pode-se \u201cacompanhar, no cotidiano de trabalho dos t\u00e9cnicos e dirigentes, o esfor\u00e7o reiterado de encontrar, a cada nova transi\u00e7\u00e3o de mando, as racionaliza\u00e7\u00f5es capazes de justificar a continuidade da institui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTendo sido reorganizada a partir dos anos 70, sob os ausp\u00edcios da abertura pol\u00edtica que come\u00e7ou a ser implementada pelo pr\u00f3prio regime autorit\u00e1rio, a \u00e1rea da cultura, em n\u00edvel federal, foi constitu\u00edda como um sistema pequeno e eficiente\u201d&#8230; \u00a0\u201cO Ministro Jarbas Passarinho&#8230; da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, percebendo a pouca aten\u00e7\u00e3o dada \u00e0 \u00e1rea&#8230; resolve como que \u2018resgat\u00e1-la\u2019\u201d. A autora diz que, conforme Roberto Parreira, criador da Funarte e seu primeiro diretor executivo , nisso \u201c\u2019n\u00e3o teria havido respaldo de nenhuma ideologia\u201d ou teoria. Para Isaura Botelho, esse ponto teria possibilitado o \u201cespa\u00e7o que os t\u00e9cnicos do setor tiveram para construir n\u00e3o s\u00f3 uma pol\u00edtica, como tamb\u00e9m institui\u00e7\u00f5es para conduzi-la\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA cria\u00e7\u00e3o da Funarte foi resultado de um processo gradativo de transforma\u00e7\u00e3o no quadro institucional existente no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, em 1975. Desta forma, ela herdou, em seu processo de constru\u00e7\u00e3o, algumas caracter\u00edsticas de programas que a precederam. A Funarte \u00e9 filha direta do Programa de A\u00e7\u00e3o Cultural \u2013 PAC \u2013 criado em agosto de 1973, vinculado \u00e0 estrutura do Departamento de Assuntos Culturais do MEC e gerido por Roberto Parreira. Como objetivo primeiro o PAC tinha \u2018a tarefa de levar a todos os brasileiros uma cultura acess\u00edvel\u2019. Com a diversifica\u00e7\u00e3o de suas atividades e o grande aporte de verbas vindas do Fundo Brasileiro para o Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o, o FNDE, o programa foi-se tornando maior e mais poderoso que o Departamento\u201d.\u00a0 Botelho Lembra que, assim \u201cpela primeira vez a cultura&#8230; tinha recursos dignos para o est\u00edmulo \u00e0s suas atividades. [&#8230;] Ele tinha [&#8230;] e os \u00f3rg\u00e3os existentes n\u00e3o\u201d. E que o Minist\u00e9rio priorizou a realiza\u00e7\u00e3o de eventos sobre outras a\u00e7\u00f5es. Segundo Parreira, a iniciativa \u201ctransformou o minist\u00e9rio num [&#8230;] empres\u00e1rio de espet\u00e1culos\u201d, o que era, entre outras coisas, \u201cquest\u00e3o de sobreviv\u00eancia para o artista\u201d.<\/p>\n<p>O livro acrescenta que conflitos internos do MEC por verba levaram \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o de recursos do PAC e da queda do seu apoio para v\u00e1rias \u00e1reas art\u00edsticas; e lembra que a Pol\u00edtica Nacional de Cultura (1975) previa a cria\u00e7\u00e3o de uma entidade executiva, a ser vinculada ao MEC. Esta foi a Funarte. A obra narra como, embora houvesse a inten\u00e7\u00e3o de que a casa absorvesse \u201ctodas as \u00e1reas culturais\u201d do Minist\u00e9rio, ela alcan\u00e7ava apenas m\u00fasica (popular e erudita) \u2013, artes \u201cpl\u00e1sticas e visuais\u201d e folclore (este somente a partir de 78). Botelho lembra que a Funda\u00e7\u00e3o come\u00e7ou englobando o Instituto Nacional de M\u00fasica (INM) e o Instituto Nacional de Artes Pl\u00e1sticas (INAP) e o novo Instituto Nacional de Folclore (INF) \u2013 em 78, convivendo com o Servi\u00e7o Nacional de Teatro (SNT) e com a Funda\u00e7\u00e3o do Cinema Brasileiro (FCB).<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #000000;\">Um polo de a\u00e7\u00e3o cultural e incentivo financeiro<\/span><\/span><\/p>\n<p>A obra descreve com detalhes a a\u00e7\u00e3o da Funarte em seus primeiros anos, com falas de gestores e servidores da casa \u2013 como a do PhD em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade de Chicago (EUA), M\u00e1rio Brockmann Machado, professor titular da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV), \u201cparticipante ativo\u201d no desenvolvimento da entidade e seu segundo diretor, sucedendo Roberto Parreira. Machado lembra que o \u00f3rg\u00e3o sempre foi \u201cum centro cultural e tamb\u00e9m uma ag\u00eancia de financiamento para atividades culturais\u201d. A autora destaca que se come\u00e7ou a planejar uma atua\u00e7\u00e3o maior da Funarte em n\u00edvel nacional; que o or\u00e7amento para o programa de educa\u00e7\u00e3o\/cultura para extens\u00e3o cultural com universidades\u00a0foi importante para a consolida\u00e7\u00e3o da entidade; e para a amplia\u00e7\u00e3o de sua presen\u00e7a em outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>A consultora destaca que, como ag\u00eancia de fomento, a Funarte criou \u201cmecanismos agilizadores\u201d para aumentar o contato com institui\u00e7\u00f5es locais e ser uma articuladora entre elas \u201cno sentido de viabilizar a execu\u00e7\u00e3o de projetos comuns\u201d; que foi designado um t\u00e9cnico de cada instituto para catalogar a \u201cdemanda externa\u201d; e formado um grupo, que reunia a Assessoria T\u00e9cnica (ATEC) e esses relatores, para formular a\u00e7\u00f5es. Estas inclu\u00edam projetos locais, atrav\u00e9s de pequenas consultorias e chancelas, as quais valorizavam essas iniciativas. O painel mostra que a estrat\u00e9gia contribuiu para a capilariza\u00e7\u00e3o da Funarte no pa\u00eds e ajudou a alicer\u00e7ar a entidade.<\/p>\n<p>A autora registra um elemento como essencial: cada instituto criava seus pr\u00f3prios projetos e administrava seus recursos; e as propostas de fora eram avaliadas pelo diretor executivo, com parecer da ATEC, e atendidas com verba pr\u00f3pria da Dire\u00e7\u00e3o, com parecer das \u00e1reas. &#8220;Os institutos tiveram de gerir os recursos para essas demandas e a discuti-las com o colegiado&#8221;, diz a autora ao Portal da Funarte. O livro coloca essa medida como fundamental, pois, por causa dela, os institutos passaram a ter que dar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s propostas &#8220;externas&#8221;; e &#8220;os pareceres se tornaram muito mais consistentes, num di\u00e1logo com a pol\u00edtica setorial&#8217;, declara Botelho.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Anos 80: a meta de expans\u00e3o para fora do eixo Rio \u2013 S\u00e3o Paulo<\/span><\/strong><\/p>\n<p>O livro narra com min\u00facias o desenvolvimento da Funarte no come\u00e7o dos anos 1980. Ela consolidou as primeiras propostas a grandes demandas, como o apoio a projetos externos e maior presen\u00e7a nacional, para atender a regi\u00f5es fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo; criou parcerias com \u00f3rg\u00e3os estaduais e com associa\u00e7\u00f5es e empresas privadas, programas permanentes de arte-educa\u00e7\u00e3o e de festivais e mostras, com universidades; e formalizou o \u201cTrabalho Cultural em Munic\u00edpios\u201d. Os t\u00e9cnicos viajavam pelo Brasil, para levantar necessidades e acompanhar a\u00e7\u00f5es. Entre as medidas adotadas estava a cria\u00e7\u00e3o do Grupo de Atendimento externo, com cerca de dez servidores ligados \u00e0s v\u00e1rias linguagens art\u00edsticas, coordenados pela ATEC. O coletivo transformou-se depois em Comiss\u00e3o Intersetorial, colegiado que teria sido \u201co grande formulador de debate da pol\u00edtica da Funarte\u201d; e que iniciou uma integra\u00e7\u00e3o entre os programas (originando uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica global entre as \u00e1reas) e entre propostas \u201cinternas\u201d e \u201cexternas\u201d; e \u201cse transformou num grande gerador de informa\u00e7\u00f5es\u201d). Esse processo teria sido a principal fonte de uma diretriz hist\u00f3rica da casa, o <em>Documento de a\u00e7\u00e3o <\/em>(1983), que pontua crit\u00e9rios de base para a Funarte. Provavelmente isso tenha sido essencial para a consolida\u00e7\u00e3o do papel da entidade no pa\u00eds (porque parece ser a diretriz origin\u00e1ria dos padr\u00f5es da casa).<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Apoio p\u00fablico versus cultura como neg\u00f3cio<\/span><\/strong><\/p>\n<p>A autora observa que a Funda\u00e7\u00e3o foi criada para ser, em primeiro plano, uma ag\u00eancia de fomento.\u00a0 E situa a discuss\u00e3o sobre a controv\u00e9rsia entre duas opini\u00f5es. Uma \u00e9 a defesa do apoio p\u00fablico \u00e0 arte, devido \u00e0 sua import\u00e2ncia para a identidade nacional (e hoje se fala tamb\u00e9m na diversidade cultural). A outra \u00e9 a tese de que a cultura \u00e9 um neg\u00f3cio como outro qualquer e, como tal, deve se autofinanciar e submeter-se \u00e0s regras do mercado. A autora diz que, \u201cPor detr\u00e1s de ambas as posi\u00e7\u00f5es est\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 aquilo que se entende por arte e cultura\u201d, como tamb\u00e9m a maneira como se v\u00ea \u201co grau de presen\u00e7a\u201d que o Estado deve ter \u201cna vida da sociedade\u201d.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Enfrentando conflitos<\/span><\/strong><\/p>\n<p>O livro mostra algumas dificuldades fundamentais que a casa sempre enfrentou, tais como seu duplo papel de produtora ou de financiadora, que j\u00e1 embara\u00e7ava a concep\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica essencial da entidade. Outro inconveniente: o natural obst\u00e1culo para que se integrassem as v\u00e1rias divis\u00f5es de \u00e1reas art\u00edsticas da casa (as quais desde aquela \u00e9poca, tentavam fortalecer seus interesses espec\u00edficos, com direcionamentos distintos) e relata como a necessidade da \u201cintegra\u00e7\u00e3o interna\u201d j\u00e1 na \u00e9poca foi um diagn\u00f3stico importante, numa avalia\u00e7\u00e3o profunda, realizada em 1983. Uma quest\u00e3o diferente seria o cont\u00ednuo desacordo entre dois perfis de servidores (fossem gestores ou subordinados): \u201cespecialista\u201d (o que olha as coisas sob o \u00e2ngulo de uma certa \u00e1rea das artes) e o \u201cgeneralista\u201d (o t\u00e9cnicos de planejamento, que busca formular estrat\u00e9gias de unidade para a organiza\u00e7\u00e3o \u2013 mas que pode n\u00e3o ter expertise em nenhuma arte, ou mesmo em cultura).<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">O <em>Documento de A\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 um legado de miss\u00e3o e estrat\u00e9gia<\/span><\/strong><\/p>\n<p>O livro destaca o papel do <em>Documento de A\u00e7\u00e3o<\/em> (1983) e transcreve sua introdu\u00e7\u00e3o. Ela ressalta que o o trabalho \u00e9 fruto de sete anos de pr\u00e1tica. Diz que \u201c<em>foi elaborado pelo conjunto de t\u00e9cnicos da Funarte e reflete, portanto, o pensamento da institui\u00e7\u00e3o como um todo\u201d<\/em><em>; e explica<\/em><em>: \u201c&#8230;T<\/em>rabalharam num primeiro <em>momento todos os funcion\u00e1rios da casa<\/em>&#8230;. c<em>ada setor indicou seu representante<\/em> para levar \u00e0 plen\u00e1ria as cr\u00edticas e sugest\u00f5es levantadas. Cotejadas e exaustivamente discutidas as diversas posi\u00e7\u00f5es, chegou-se a um consenso capaz de permitir a uma comiss\u00e3o redigir a vers\u00e3o definitiva\u201d. Numa \u201creflex\u00e3o conjunta sobre a cultura\u201d e suas pol\u00edticas, o documento<em> <\/em><em>in<\/em>forma mapeia a estrutura da Funarte, \u201csuas linhas de a\u00e7\u00e3o e seus\u00a0<em>crit\u00e9rios de atendimento\u201d. <\/em>A proposta \u00e9 sedimentar um di\u00e1logo com \u201caqueles que, na verdade, representam sua raz\u00e3o de ser\u201d: todos aqueles que \u201clidam com cultura\u201d. Mas o principal objetivo era criar procedimentos nacionais, conhecendo \u201ca realidade sobre a qual se deve atuar\u201d; \u201cestabelecer&#8230; prioridades de apoio\u201d; e apresentar desafios e par\u00e2metros para venc\u00ea-los.<\/p>\n<p>Estes eram: \u201cTrabalhar com um conceito abrangente de arte e cultura\u201d; \u201cEfetivar a incorpora\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es definidas como priorit\u00e1rias pelo MEC\u201d (Norte, Nordeste e Centro-Oeste); e \u201cDescentralizar a administra\u00e7\u00e3o com o fortalecimento do poder decis\u00f3rio dos institutos e n\u00facleos\u201d. Mas a autora mostra que o <em>Documento<\/em> tamb\u00e9m colocou \u201cmetas pol\u00edticas\u201d: a saber: democratiza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o; e fixou seis \u201cLinhas program\u00e1ticas\u201d de apoio: \u201cao fazer\u201d \u2013 subdividida em \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpesquisa da qualidade dos materiais\u201d para produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica; apoio \u201c\u00e0 solu\u00e7\u00e3o dos problemas profissionais\u201d; \u201c\u00e0 infra-estrutura\u201d; \u201c\u00e0 circula\u00e7\u00e3o do produto cultural\u201d; \u201c\u00e0 reflex\u00e3o\u201d (pesquisa e debate); e \u201c\u00e0 documenta\u00e7\u00e3o\u201d. Botelho comenta cada ponto.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">A \u00e9poca de decl\u00ednio das institui\u00e7\u00f5es culturais<\/span><\/strong><\/p>\n<p>E \u00e9 claro que a obra relata o exterm\u00ednio dos \u00f3rg\u00e3os federais de cultura, em 1990, pelo Governo Collor; a cria\u00e7\u00e3o, no mesmo ano, do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, encampando as antigas Funarte, Fundacen, e FCB; e a substitui\u00e7\u00e3o, em 1994, do IBAC pela Funarte. Para Sergio Miceli, o livro mostra que as press\u00f5es pol\u00edticas para cria\u00e7\u00e3o do MinC e as correspondentes mudan\u00e7a de diretrizes do Governo, \u00e0 \u00e9poca, foram abafando os direcionamentos dos t\u00e9cnicos da Funarte e enfraqueceram a institui\u00e7\u00e3o. Mas o cientista social tira uma poss\u00edvel conclus\u00e3o da obra: \u201cO decl\u00ednio e posterior desmonte da Funarte t\u00eam muito mais a ver com o\u201d seu \u201cisolamento pol\u00edtico [&#8230;] em rela\u00e7\u00e3o aos intelectuais e artistas do que com a fragilidade organizacional perante o Minist\u00e9rio da Cultura. De fato, ao ver da autora, \u201c&#8230; quando Fernando Collor assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em 1990, j\u00e1 havia um terreno prop\u00edcio para o desmonte da estrutura\u201d.<\/p>\n<p>No \u00faltimo Cap\u00edtulo, o livro descreve o itiner\u00e1rio da Funarte no per\u00edodo de 1983 a 1990, chamado de \u201cNova Rep\u00fablica\u201d. Registra o refor\u00e7o do F\u00f3rum Nacional de Secret\u00e1rios de Cultura nas pol\u00edticas culturais do MEC; que eles iam diretamente aos ministros, o que enfraquecia as institui\u00e7\u00f5es de cultura; e comenta como isso influenciou na cria\u00e7\u00e3o do MinC. Diz que, com a perspectiva do novo minist\u00e9rio ainda fraco, iniciou-se uma \u201cdisputa de poder\u201d entre os \u00f3rg\u00e3os vinculados \u00e0 antiga Secult\/MEC. Com o tempo, a amplia\u00e7\u00e3o dessa rivalidade pode ter colaborado para o abatimento dessas entidades, o que teria criado uma atmosfera prop\u00edcia \u00e0 sua extin\u00e7\u00e3o, por decreto.<\/p>\n<p>\u201cA partir de 1985, com a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, uma nova estrutura \u2014 o Minist\u00e9rio da Cultura \u2014 se superp\u00f4s ao desenho institucional anterior, fragilizando suas institui\u00e7\u00f5es e contribuindo para a desarticula\u00e7\u00e3o do trabalho realizado at\u00e9 ent\u00e3o. Ou seja, j\u00e1 a partir de 1985, essa estrutura, que parecia ser est\u00e1vel e pronta para um crescimento, \u00e0 medida que novas necessidades se impusessem, come\u00e7ou, na verdade, a se desgastar\u201d.<\/p>\n<p>Em contraste, a autora viu pontos positivos nas mudan\u00e7as anteriores de estrutura ministerial: a cria\u00e7\u00e3o de secretarias de cultura no MEC: \u201cserviram de est\u00edmulo ao debate sobre pol\u00edticas culturais e de desafio a uma maior profissionaliza\u00e7\u00e3o de seus t\u00e9cnicos. Por outro lado, esse distanciamento, visto num primeiro momento como perda de prest\u00edgio, garantiu a autonomia da pol\u00edtica institucional, j\u00e1 que as diverg\u00eancias ocorriam em escal\u00f5es mais baixos&#8230;. Por\u00e9m, para a autora, a cria\u00e7\u00e3o do MinC, \u201cfoi traum\u00e1tica e mudou os rumos\u201d das entidades da \u00e1rea.<\/p>\n<p>\u201c&#8230; Na \u00e9poca da cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cultura, os \u00f3rg\u00e3os a ele vinculados eram os detentores do maior volume de informa\u00e7\u00f5es e conhecimento especializado sobre suas respectivas \u00e1reas e sobre sua situa\u00e7\u00e3o nos diversos estados. No caso de alguns deles, esta informa\u00e7\u00e3o era mais significativa do que aquela acumulada nos pr\u00f3prios organismos estaduais\u201d, pontua a pesquisadora. Ela acrescenta que, no caso da Funarte, isso era \u201cconsider\u00e1vel\u201d, \u201csendo conseq\u00fc\u00eancia direta da intensa circula\u00e7\u00e3o de seus t\u00e9cnicos pelo pa\u00eds\u201d para acompanhar e assessorar projetos e outras institui\u00e7\u00f5es, \u201cparticipando tamb\u00e9m de encontros e de debates locais&#8221;.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">O contato com a comunidade art\u00edstica<\/span><\/strong><\/p>\n<p>S\u00e9rgio Miceli enfatiza um ponto do texto, relacionado \u00e0 \u201c&#8230;natureza das liga\u00e7\u00f5es entre ag\u00eancias de promo\u00e7\u00e3o cultural como a Funarte com as diversas categorias de artistas,\u00a0 produtores e intelectuais \u201cque constituem o grosso de sua clientela [&#8230;]. A despeito da proximidade entre os t\u00e9cnicos da casa\u201d e esses profissionais, \u201c&#8230;por vezes se tem a impress\u00e3o de que [suas]&#8230; demandas&#8230; \u201csofreram frequentemente a inger\u00eancia de diretrizes e orienta\u00e7\u00f5es impostas pelos altos dirigentes do Minist\u00e9rio. E, o mais surpreendente, esse descompasso ia sendo sedimentado em meio \u00e0s constantes redefini\u00e7\u00f5es dos objetivos institucionais, veiculadas pelas diversas concep\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias do que se entende por cultura\u201d. O soci\u00f3logo argumenta no pref\u00e1cio que, embora alguns estudos j\u00e1 tivessem apontado algo nessa dire\u00e7\u00e3o, \u201ca extremada depend\u00eancia perante os ditames da pol\u00edtica ministerial\u201d acrescentaria um ingrediente repugnante ao quadro mostrado:<\/p>\n<p>\u201cTudo se passa como se dois universos de experi\u00eancia estivessem em confronto\u201d na Funarte: \u201c&#8230; de um lado, o trabalho de constru\u00e7\u00e3o institucional tal como se manifesta nas pr\u00e1ticas de gest\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o culturais suscitadas pelos projetos em andamento e, de outro lado, os programas de metas e os documentos de cunho doutrin\u00e1rio, como que destilando as pegadas das concep\u00e7\u00f5es dos dirigentes\u201d.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">A asfixia da Funarte<\/span><\/strong><\/p>\n<p>As causas espec\u00edficas para o enfraquecimento da Funarte no final dos anos 80, apontadas no livro (em especial no \u00faltimo cap\u00edtulo), podem ser divididas em dois grupos: aquelas ligadas a dificuldades da casa em rela\u00e7\u00e3o ao rec\u00e9m-criado Minist\u00e9rio da Cultura; e as causas internas. Entre as primeiras, destacam-se dez:<\/p>\n<ul>\n<li>Superposi\u00e7\u00e3o de or\u00e7amentos e fun\u00e7\u00f5es de secretarias do rec\u00e9m-criado Minist\u00e9rio da Cultura;<\/li>\n<li>Falta de feedback em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s artes na elabora\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas do MinC, criadas com uma prefer\u00eancia pela articula\u00e7\u00e3o direta regional com secretarias, passando por cima do di\u00e1logo j\u00e1 constru\u00eddo pela Funarte com estas \u2013 e com os pr\u00f3prios produtores;<\/li>\n<li>Desvio de canais de debate com alguns produtores e artistas, ultrapassando a Funarte e indo diretamente ao Minist\u00e9rio;<\/li>\n<li>Desarticula\u00e7\u00e3o de investimentos em parcerias com outras institui\u00e7\u00f5es, apropriados por secretarias e funda\u00e7\u00f5es estaduais, por influ\u00eancia do MinC;<\/li>\n<li>Imposi\u00e7\u00e3o, por parte do Governo, do deslocamento de propostas de arte-educa\u00e7\u00e3o e similares para o MEC;<\/li>\n<li>Dificuldades para um relacionamento produtivo entre o Minist\u00e9rio e suas vinculadas;<\/li>\n<li>Diminui\u00e7\u00e3o de recursos, devido \u00e0s crises econ\u00f4micas;<\/li>\n<li>Identifica\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es como \u201cfrutos do regime militar\u201d, retirando-lhes peso pol\u00edtico;<\/li>\n<li>Perda de espa\u00e7o pol\u00edtico dos servidores das institui\u00e7\u00f5es<\/li>\n<li>Descoordena\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas (ao contr\u00e1rio do que realizava a antiga Secretaria de Cultura do MEC).<\/li>\n<\/ul>\n<p>Entre os principais motivos internos de abatimento da Funarte, sobressai outra dezena:<\/p>\n<ul>\n<li>Gest\u00e3o excessivamente pol\u00edtica, dissociada do saber t\u00e9cnico institucional e do di\u00e1logo com as classes de arte (inclusive as regionais), constru\u00eddo em muitos anos;<\/li>\n<li>Dificuldades de di\u00e1logo: interrup\u00e7\u00e3o do contato direto dos t\u00e9cnicos com as regi\u00f5es, por progressivo corte de verba; falta de debate com novos atores sociais, emergentes na redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u2013 perda do \u201cinvestimento no \u201colhar para fora\u201d e no \u201cconhecer a realidade\u201d e na \u201cpresen\u00e7a nacional\u201d, para \u201colhar para o pr\u00f3prio umbigo\u201d; falta de di\u00e1logo com o MinC; e diminui\u00e7\u00e3o do \u201cdebate interno\u201d;<\/li>\n<li>Falta de plano de carreira para os servidores;<\/li>\n<li>Descontinuidade administrativa nas a\u00e7\u00f5es, (a partir de 1985);<\/li>\n<li>Esvaziamento da assessoria t\u00e9cnica da casa e, tamb\u00e9m por isso, aumento da competi\u00e7\u00e3o interna entre as \u00e1reas art\u00edsticas;<\/li>\n<li>Crise de fun\u00e7\u00e3o: aprofundamento do conflito entre os que defendiam papel da Funarte como realizadora de grandes programas (fun\u00e7\u00e3o j\u00e1 tradicional) e aqueles que entendiam a casa como patrocinadora e apoiadora de projetos externos \u2013 al\u00e9m do fato de que o aumento dessa diverg\u00eancia teria chegado a superar o esfor\u00e7o para valorizar a entidade na estrutura do MinC (a\u00e7\u00e3o essa que seria priorit\u00e1ria);<\/li>\n<li>Influ\u00eancia pol\u00edtica na escolha de projetos a serem apoiados \u2013 segundo depoimentos;<\/li>\n<li>Problemas de administra\u00e7\u00e3o: conflitos de gest\u00e3o entre presid\u00eancias e dire\u00e7\u00f5es executivas; al\u00e9m de \u201cgest\u00f5es inoperantes\u201d<\/li>\n<li>\u201cFalta de lideran\u00e7a interna\u201d<\/li>\n<li>Com tudo isso, \u201cdesarticula\u00e7\u00e3o e desmotiva\u00e7\u00e3o internas\u201d.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A autora argumenta que faltaram \u201cdiretrizes seguras\u201d para defender a Funarte. Mas destaca: \u201cO principal motivo do fracasso foi, no meu entender; o papel preponderante do jogo da pol\u00edtica mi\u00fada que descaracterizou conte\u00fados, reduzindo o debate a uma disputa de poder interno\u201d (na \u00e1rea de cultura federal).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 extin\u00e7\u00e3o por decreto das entidades culturais, em 90, a pesquisadora comenta que o presidente da Rep\u00fablica \u201cCollor come\u00e7ou por um &#8216;enxugamento&#8217; sem crit\u00e9rio da m\u00e1quina estatal, demitindo funcion\u00e1rios p\u00fablicos e decretando o fim de institui\u00e7\u00f5es, no dia seguinte \u00e0 sua posse entre estas, toda a estrutura federal de apoio \u00e0 cultura, que teve tamb\u00e9m grande parte de seus funcion\u00e1rios demitidos\u201d \u2013 o que n\u00e3o existe legalmente (tanto, que foram readmitidos mais tarde, por decis\u00e3o judicial). \u201cEsta experi\u00eancia desarticulou o setor em n\u00edvel de governo federal com repercuss\u00f5es que se fazem sentir at\u00e9 hoje\u201d, Reflete Botelho.<\/p>\n<p>Nesse cap\u00edtulo final, ela identifica que, na \u00e9poca, a prioridade dada ao financiamento privado, por leis de incentivo, apontou para uma tend\u00eancia pol\u00edtica de retirada do estado da atividade cultural, coerente com o decl\u00ednio de todos os \u00f3rg\u00e3os de cultura, sua confus\u00e3o administrativa e, enfim, extin\u00e7\u00e3o. Esta ainda seria em s\u00edntese, para a autora, uma \u201cvingan\u00e7a pessoal de Collor contra a classe art\u00edstica, que n\u00e3o o apoiara em sua campanha\u201d.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">\u201cSeu ponto forte foi seu ponto fraco\u201d: servidores, sua autonomia e sua carreira<\/span><\/strong><\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rios estudos sobre a burocracia brasileira v\u00eam demonstrando como&#8230; uma \u2018autonomia relativa\u2019 deste segmento dentro do aparelho estatal&#8230;, no per\u00edodo p\u00f3s-64, lhe permitiu a formula\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas decisivas no plano econ\u00f4mico\u201d, afirma Botelho, citando especialistas. Um deles, Gouv\u00eaa, conclui: \u201cquanto mais distantes essas organiza\u00e7\u00f5es estiverem do governo central, maior ser\u00e1 a sua autonomia e a de sua burocracia. E seus &#8220;recursos de poder (pol\u00edticos e financeiros) (&#8230;) v\u00eam mais do sucesso de suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es do que do poder pol\u00edtico central&#8221; (1994)\u201d. A autora acredita que, \u201cno caso da Funarte, esta autonomia tenha sido favorecida pelo fato de a \u00e1rea cultural&#8230; ser perif\u00e9rica n\u00e3o s\u00f3 no conjunto das pol\u00edticas p\u00fablicas governamentais como dentro do pr\u00f3prio\u201d MEC. \u201cEstando \u00e0 margem&#8230; das pol\u00edticas priorit\u00e1rias\u201d, esses \u201ct\u00e9cnicos tiveram muito espa\u00e7o de manobra para construir a institui\u00e7\u00e3o\u201d. Seria como dizer que o ponto forte dos \u00f3rg\u00e3os de cultura foi o seu ponto fraco.<\/p>\n<p>\u201c&#8230;Eles tomaram, a ferro e fogo, a defesa de seus princ\u00edpios, nos momentos em que foram criadas as primeiras sobreposi\u00e7\u00f5es\u201d de secretarias do MinC, enfatiza. Mas a Funarte, \u00e0 \u00e9poca de sua extin\u00e7\u00e3o, \u201cn\u00e3o podia traduzir sua performance em rendimento economicamente mensur\u00e1vel, nem mesmo falar de uma ades\u00e3o da sociedade para legitimar sua exist\u00eancia e crescimento\u201d, observa Botelho. Ela percebeu, tamb\u00e9m que um fator para a debilita\u00e7\u00e3o da casa foi a sens\u00edvel e progressiva perda salarial dos servidores; e sua falta de perspectiva de progresso funcional: \u201cA falta de um plano de carreira que permitisse aos t\u00e9cnicos uma ascens\u00e3o funcional que pudesse ser programada ou calculada \u00e9 outro fator que, considerado determinante na postura funcion\u00e1rios com rela\u00e7\u00e3o a seus compromissos institucionais\u201d teria influenciado muito na debilita\u00e7\u00e3o da Funarte.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">O papel do estado na cultura, novos caminhos e a participa\u00e7\u00e3o social<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>A autora argumenta que os estudos da \u00e9poca sobre o papel do Estado na vida nacional \u201cdemonstram claramente que a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de cada pa\u00eds \u00e9 fator determinante da forma de organiza\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o de estruturas governamentais centrais de apoio \u00e0 cultura\u201d.\u00a0 &#8220;Nos pa\u00edses onde as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil realmente participam, defendem e estimulam as atividades art\u00edsticas e culturais, elas t\u00eam cumprido um papel decisivo para a perman\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es e projetos que julgam relevantes\u201d. A autora considera que fica clara a import\u00e2ncia de se ter a alian\u00e7a de \u00e1reas com maior for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Segundo Isaura Botelho, para que a cultura possa se legitimar como algo fundamental na vida de um pais, \u00e9 \u201cimprescind\u00edvel a cria\u00e7\u00e3o de um sistema com canais diversificados de apoio (e n\u00e3o concentrado numa s\u00f3 estrutura de financiamento), que lhe permita uma sobreviv\u00eancia um pouco menos dependente das crises pol\u00edtico econ\u00f4micas\u201d. Para a autora, Isto significa dizer que \u201cuma politica econ\u00f4mica que se queira eficaz\u201d, precisa tamb\u00e9m dar uma aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s parcerias com as diversas esferas p\u00fablicas de poder; e ainda criar mecanismos \u201cque estimulem o investimento privado, tanto de pessoas f\u00edsicas quanto de pessoas jur\u00eddicas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDe fato, a experi\u00eancia nos mostra que o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 propriamente a presen\u00e7a do Estado, mas o peso relativo da sua participa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. E argumenta que \u00e9 fundamental o papel do Estado na \u00e1rea art\u00edstico-cultural, quer como financiador direto, quer como estimulador da sociedade. E prop\u00f5e que os governos devam superar o \u201cpaternalismo\u201d, o qual leva os produtores culturais a acomodar-se num modelo \u201cf\u00e1cil\u201d, beneficiador do populismo, do clientelismo, at\u00e9 da \u201ctroca de favores\u201d. Mas que \u201cn\u00e3o se trata de o Estado retirar-se, mas sim de repensar sua atua\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Botelho lembra, ainda, a import\u00e2ncia da articula\u00e7\u00e3o entre as legisla\u00e7\u00f5es federal, estaduais e municipais na cultura para o sucesso de um sistema de incentivo ao setor.<\/p>\n<p>Na conclus\u00e3o, a autora salienta o fato de que n\u00e3o prop\u00f4s que a antiga Funarte fosse modelo para o presente \u2013 pois as condi\u00e7\u00f5es anteriores poderiam n\u00e3o se repetir \u2013, mas que intencionou \u201cconsiderar essa importante experi\u00eancia passada para oferecer um exemplo que demonstra o quanto \u00e9 poss\u00edvel, na \u00e1rea cultural, construir institui\u00e7\u00f5es, formar profissionais, identificar problemas e formular solu\u00e7\u00f5es conforme estrat\u00e9gias capazes de criar condi\u00e7\u00f5es para uma produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Em suma, n\u00e3o h\u00e1 nada de errado, ou de pura especula\u00e7\u00e3o, no pensar a \u00e1rea cultural como pass\u00edvel de uma efetiva pol\u00edtica p\u00fablica. O equ\u00edvoco \u00e9 pens\u00e1-la como um setor onde cada dirigente rec\u00e9m-empossado se coloque como tarefa \u2018inventar\u2019 o campo da cultura a partir de um suposto \u2018grau zero\u2019, terra de ningu\u00e9m que favoreceria iniciativas \u2018inusitadas\u2019, desconhecendo a complexidade dos problemas e dos processos j\u00e1 em andamento. Se meu estudo de caso tem uma pretens\u00e3o, \u00e9 a de alimentar, de alguma forma, o debate em torno das rela\u00e7\u00f5es entre Estado e cultura, tematizando justamente as consequ\u00eancias de habituais improvisa\u00e7\u00f5es grosseiras&#8230;\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Adiciona que n\u00e3o havia mudan\u00e7a substancial no painel retratado, mesmo no ano 2000; e que seria necess\u00e1ria a diversifica\u00e7\u00e3o de fontes de financiamento para a \u00e1rea cultural, que implicariam em \u201cestrat\u00e9gias de conquista da iniciativa privada\u201d as quais dependeriam do poder p\u00fablico. Mas essas formas de fomento n\u00e3o necessariamente \u201ccontribuem para criar uma vertente est\u00e1vel de participa\u00e7\u00e3o do capital privado\u201d. Defende, ainda, atrair as pessoas f\u00edsicas para o financiamento a projetos culturais \u2013 no que se antecipou estrategicamente aos atuais \u201ccrowdfundings\u201d, ou financiamentos colaborativos, hoje praticados com sucesso na internet (\u201cvaquinhas virtuais\u201d) \u2013 uma verdadeira \u201cprofecia\u201d pois, no ano 2000 nem se falava nisso.<\/p>\n<p>Isaura Botelho termina o livro dizendo que \u201ca \u00e1rea da cultura requer a presen\u00e7a do setor governamental atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica criteriosa que se veja refletida no sistema de institui\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o minist\u00e9rio\u201d; que o apoio financeiro governamental d\u00e1 \u201csuporte a atividades de m\u00e9dio e longo prazos que, por suas caracter\u00edsticas, n\u00e3o d\u00e3o retorno de imagem, a esfera governamental \u00e9 a \u00fanica que pode encarar o setor de maneira global, contribuindo para a exist\u00eancia de a\u00e7\u00f5es coordenadas\u201d. Dessa forma, a presen\u00e7a estatal n\u00e3o s\u00f3 estimularia a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, como tamb\u00e9m a valorizaria perante os investidores. Por\u00e9m, sustenta que o Governo deva incentivar a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade para que esta sugira e cobre medidas para projetos culturais \u2013 como j\u00e1 existe, h\u00e1 muito tempo, em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Leia mais sobre a autora*<\/span><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Isaura Botelho participou, em Paris, de um programa conjunto da Faculdade de Direito e Ci\u00eancias Pol\u00edticas da Universidade da Borgonha (Fran\u00e7a) e do Minist\u00e9rio da Cultura franc\u00eas, obtendo um Dipl\u00f4me d\u2019\u00c9tudes Sup\u00e9rieures Sp\u00e9cialis\u00e9es (DESS) \u2013 Diploma de Estudos Superiores Especializados \u2013 , com tese sobre mecenato, em 1991.\u00a0De 92 a 95, foi coordenadora do escrit\u00f3rio da Funarte em S\u00e3o Paulo. Em 99, concluiu o P\u00f3s-doutorado no D\u00e9partement des \u00e9tudes de la Prospective et Statisques (Departamento de Estudos Prospectivos e Estat\u00edstica) do Minist\u00e9rio da Cultura da Fran\u00e7a, com apoio da\u00a0Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo\u00a0(Fapesp), direcionado a \u00e1rea s\u00f3cio-econ\u00f4mica da cultura. Dirigiu o Centro de Estudos da Am\u00e9rica Latina, do Memorial da Am\u00e9rica Latina, na capital paulista, de 2001 a 2003. Neste ano, voltou ao MinC, liderando a organiza\u00e7\u00e3o do Setor de Pesquisas e Planejamento da Secretaria de Pol\u00edticas Culturais (SPC),\u00a0at\u00e9 2005. Publica artigos sobre pol\u00edtica cultural em revistas especializadas e tem participado de livros; organizou, em parceria com Jos\u00e9 \u00c1lvaro Mois\u00e9s, a obra\u00a0<em>Modelos de financiamento da cultura<\/em> (Funarte), 1997. Tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, coordenou curso no Centro de Estudos da Metr\u00f3pole (CEM) \u2013 do Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap) e da USP \u2013, com o tema: \u201cO Uso do tempo livre e as pr\u00e1ticas culturais na Regi\u00e3o Metropolitana de SP\u201d. Em 2010, na mesma capital, geriu um grupo de pesquisa geral sobre a economia criativa, em torno do Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, conduzida na Funda\u00e7\u00e3o do Direito Administrativo (Fundap). Organiza e ministra cursos de especializa\u00e7\u00e3o, extens\u00e3o, qualifica\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento de gestores culturais, em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es nacionais e do exterior e a elas presta consultoria\u00a0 \u2013 entre as quais a Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, o Sesc \u2013 SP, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Dedica-se a essa atividade desde 2010.<\/p>\n<p>*Com informa\u00e7\u00f5es da Plataforma Lattes<\/p>\n<p><strong>Obs.: as credenciais acad\u00eamicas da autora foram citadas no <a href=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/artes-integradas\/a-funarte-e-a-politica-para-as-artes-uma-historia-a-ser-descoberta\/\">artigo de abertura, aqui<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Leia mais<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/sites.funarte.gov.br\/vozessp\/entrevistas-2\/a-funarte-e-as-politicas-culturais\/isaura-botelho\/\">Entrevista de Isaura Botelho no Blog da Funarte SP<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0102-88392001000200011\">Acesse aqui o artigo de Isaura Botelho <em>Dimens\u00f5es da cultura e pol\u00edticas p\u00fablicas<\/em><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\"><em>Romance de Forma\u00e7\u00e3o: Funarte e pol\u00edtica cultural \u2013 1976 \u2013 1990<\/em><\/span><\/strong><br \/>\nIsaura Botelho<br \/>\nEdi\u00e7\u00f5es Casa de Rui Barbosa \u2013 2000<br \/>\nRio de Janeiro<br \/>\nISBN: 85-7004-219-1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na obra Romance de Forma\u00e7\u00e3o: Funarte e pol\u00edtica cultural \u2013 1976 \u2013 1990 (FCRB \u2013 2000) a Doutora em A\u00e7\u00e3o Cultural e servidora do MinC e da Funarte, aposentada pela Biblioteca Nacional, Isaura Botelho, narra que nos anos 1970 e 80 a Funarte empregava recursos para a\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em parcerias \u201cbem enraizadas nas comunidades (universidades,&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/?p=107953\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">\u2018Romance de Forma\u00e7\u00e3o: Funarte e pol\u00edtica cultural \u2013 1976 &#8211; 1990\u2019<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":108151,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,3,4,5,1,7,8],"tags":[],"class_list":["post-107953","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artes-integradas","category-artes-visuais","category-circo","category-danca","category-funarte","category-musica","category-teatro","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/107953","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=107953"}],"version-history":[{"count":37,"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/107953\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":114654,"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/107953\/revisions\/114654"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/108151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=107953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=107953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=107953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}