{"id":93041,"date":"2017-01-25T12:42:16","date_gmt":"2017-01-25T14:42:16","guid":{"rendered":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/?p=93041"},"modified":"2021-02-19T19:41:24","modified_gmt":"2021-02-19T22:41:24","slug":"tom-jobim-90-anos-as-memorias-do-maestro-no-cedoc-funarte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/?p=93041","title":{"rendered":"Tom Jobim, 90 anos: as mem\u00f3rias do maestro no Cedoc Funarte"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_93046\" aria-describedby=\"caption-attachment-93046\" style=\"width: 264px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tom-Jobim-reprodu\u00e7\u00e3o-1-e1485354732267.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-93046\" title=\"Tom Jobim\" src=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tom-Jobim-reprodu\u00e7\u00e3o-1-e1485354732267.jpg\" alt=\"\" width=\"264\" height=\"400\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-93046\" class=\"wp-caption-text\">Imagem do programa do show &#8216;Tribute do Antonio Carlos Jobim&#8217; \/ Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Pedro Paulo Malta<\/em><\/p>\n<p>Compositor, arranjador, maestro, pianista, cantor&#8230; e contador de hist\u00f3rias. Personagem dos mais importantes na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira, Tom Jobim completaria 90 anos hoje, se fosse vivo. Em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 data, fizemos uma colet\u00e2nea de frases dele a partir das entrevistas que comp\u00f5em o dossi\u00ea de impressos do maestro no Centro de Documenta\u00e7\u00e3o e Pesquisa (Cedoc) da Funarte. Frases que, al\u00e9m de pontos de vista do personagem, trazem fragmentos de sua hist\u00f3ria nas suas pr\u00f3prias palavras.<\/p>\n<p>Se lhe faltam, por exemplo, lembran\u00e7as do bairro onde nasceu (\u201cSa\u00ed muito cedo da Tijuca\u201d), a inf\u00e2ncia em Ipanema \u2013 onde foi viver com um ano de idade \u2013 \u00e9 viva em sua mem\u00f3ria, como conta numa entrevista a Luiz Egypto publicada no Folhetim, edi\u00e7\u00e3o de 17 de dezembro de 1978: \u201cE aquela areia fina de Ipanema. T\u00e3o fina que cantava no p\u00e9. Quando voc\u00ea corria na praia, a areia fazia cuim, cuim, cuim, cuim. Areia fin\u00edssima, mar limpo, muito peixe.\u201d Nas idas e vindas entre a praia e sua casa na Rua Bar\u00e3o da Torre (\u201cque era toda de areia\u201d), a m\u00fasica veio casualmente, como conta ao mesmo ve\u00edculo: \u201cTinha um piano alem\u00e3o velho na garagem e eu comecei a batucar ali.\u201d Apesar do gosto por contar suas mem\u00f3rias, ele recusa o r\u00f3tulo de nost\u00e1lgico: \u201cA gente \u00e9 mais ou menos empurrado pra falar dessas coisas, das velhas Ipanemas. Eu n\u00e3o penso mais nisso, n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>No entanto, quando o tema \u00e9 a atualidade, quase sempre os aborrecimentos de Tom Jobim s\u00e3o acompanhados de uma certa dose de humor. Como nas cr\u00edticas que o maestro faz ao Rio de Janeiro, na mesma entrevista ao Folhetim: \u201cSempre d\u00e1 pra fazer m\u00fasica de amor ao Rio porque, como diz um amigo meu, o Rio \u00e9 muito bonito visto de avi\u00e3o. L\u00e1 de cima \u00e9 um cart\u00e3o-postal! Mas aqui embaixo est\u00e1 tudo polu\u00eddo.\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 a viol\u00eancia entra em pauta quando o assunto \u00e9 cinema, no depoimento do compositor ao jornalista Dilson Osugi publicado na revista Vis\u00e3o, em 21 de setembro de 1988: \u201cAgora o Rambo \u00e9 pintado com a cara de Jesus Cristo. Est\u00e1 cada vez mais parecido com Cristo. Eles fazem isso de prop\u00f3sito, para o Rambo parecer o salvador do mundo.\u201d O maestro tamb\u00e9m torce o nariz para os tempos atuais na revista Domingo, do Jornal do Brasil, em mat\u00e9ria do jornalista S\u00e9rgio Rodrigues publicada em 8 de julho de 1990: \u201cEstamos na era do descart\u00e1vel: gilete, len\u00e7o, m\u00fasica, tudo se joga fora. Disco n\u00e3o existe mais: nas grandes lojas de Nova York, voc\u00ea s\u00f3 encontra LPs no por\u00e3o, num sebo. O ve\u00edculo de hoje \u00e9 a televis\u00e3o. Mas a bossa nova \u00e9 eterna: n\u00e3o vai morrer nunca.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_93045\" aria-describedby=\"caption-attachment-93045\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tom-Jobim-reprodu\u00e7\u00e3o-2-e1485354857725.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-93045\" title=\"Tom Jobim no Jardim Bot\u00e2nico\" src=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tom-Jobim-reprodu\u00e7\u00e3o-2-e1485354857725.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"357\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-93045\" class=\"wp-caption-text\">Imagem do Programa do show &#8216;Tribute do Antonio Carlos Jobim&#8217; \/ Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Paralelamente \u00e0 defesa constante que faz da cultura brasileira, o maestro lan\u00e7a m\u00e3o de uma de suas imagens preferidas para criticar determinados h\u00e1bitos de seus compatriotas. \u201cO Brasil \u00e9 um pa\u00eds de cabe\u00e7a pra baixo, como a Am\u00e9rica do Sul \u00e9 de cabe\u00e7a pra baixo. Se voc\u00ea olhar no mapa vai ver. Eu custei muito a acreditar nessa posi\u00e7\u00e3o estranha. Aqui a lua nasce ao contr\u00e1rio, a \u00e1gua roda ao contr\u00e1rio do hemisf\u00e9rio norte\u201d, diz Tom ao Folhetim. \u201cSe voc\u00ea faz m\u00fasica brasileira, os cr\u00edticos v\u00eam te dizer que voc\u00ea ela n\u00e3o \u00e9 brasileira. Quanto mais voc\u00ea fizer, mais eles v\u00e3o dizer que n\u00e3o faz.\u201d No depoimento \u00e0 revista Vis\u00e3o, o maestro \u00e9 ainda mais direto: \u201cAqui, o sucesso pessoal \u00e9 ofensa. As pessoas fazem um pouco comigo o que fizeram com Villa-Lobos. Ele escrevia aquelas m\u00fasicas maravilhosas e as pessoas falavam mal da sua vida.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso da mat\u00e9ria do jornal O Globo (edi\u00e7\u00e3o de 16 de novembro de 1994), assinada por Cl\u00e1udio Uchoa, na qual Tom Jobim divulga o lan\u00e7amento daquele que seria seu \u00faltimo \u00e1lbum, o CD \u201cAnt\u00f4nio Brasileiro\u201d. Depois de creditar a variedade de ritmos do disco a seu pr\u00f3prio pa\u00eds (\u201cAs m\u00fasicas s\u00e3o parte do Brasil, t\u00eam muita riqueza e ritmos\u201d), o maestro diz o que lhe tem servido de motiva\u00e7\u00e3o para compor: \u201cQuero m\u00fasicas que deem amor espiritual. Elas n\u00e3o servem para levar os jovens a correr de moto ou tomar drogas. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es para levar a Deus, a uma floresta encantada.\u201d Tamb\u00e9m revela suas inten\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s da composi\u00e7\u00e3o de uma das in\u00e9ditas do \u00e1lbum, \u201cForever green\u201d: \u201cFiz para salvar o planeta Terra, nosso lindo planetinha azul. Inclusive a letra \u00e9 em ingl\u00eas para que possa ser divulgada no mundo inteiro.\u201d<\/p>\n<p>Se no depoimento \u00e0 revista Vis\u00e3o Tom Jobim lamenta a recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica para se manter afastado de sua bebida favorita (\u201cSe n\u00e3o vou mais beber u\u00edsque, vou comprar o qu\u00ea?\u201d), nesta mat\u00e9ria do jornal O Globo ele revela uma nova prefer\u00eancia et\u00edlica: \u201cAgora, s\u00f3 um vinhozinho. N\u00e3o tenho mais tempo para me embebedar, tenho muitos compromissos e obriga\u00e7\u00f5es.\u201d Aos que duvidam, o depoimento do maestro \u00e0 Vis\u00e3o traz detalhes de sua rotina: \u201cAcordo cedo e \u00e0s 4h j\u00e1 estou escrevendo m\u00fasica. Estou com 61 anos e trabalhando sem parar. Estou trabalhando mais do que mere\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>A pol\u00eamica em torno do licenciamento de \u201c\u00c1guas de mar\u00e7o\u201d para a Coca-Cola (que usou o samba como jingle numa campanha de TV em 1985) tamb\u00e9m mereceu resposta de Tom Jobim, conforme lemos na Vis\u00e3o: \u201cO Michael Jackson fez um an\u00fancio da Pepsi-Cola e ganhou 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares, com o qual comprou todas as edi\u00e7\u00f5es dos Beatles. Claro que n\u00e3o ganhei isso. Mas, se eu ganhasse, compraria as m\u00fasicas do Tom Jobim, porque a minha obra eu dei, dada, como tantos outros compositores.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_93048\" aria-describedby=\"caption-attachment-93048\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tom-Jobim-reprodu\u00e7\u00e3o-3-e1485355095192.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-93048\" title=\"Tom Jobim\" src=\"https:\/\/sistema.funarte.gov.br\/noticias-antigas\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Tom-Jobim-reprodu\u00e7\u00e3o-3-e1485355095192.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"282\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-93048\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o de imagem da revista Vis\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sua mudan\u00e7a do Rio para Nova York \u2013 onde vivia desde 1984 \u2013 era outro tema abordado com frequ\u00eancia por Tom, que se incomodava com as insinua\u00e7\u00f5es de que a nova morada contaminaria a natureza da sua composi\u00e7\u00e3o. \u201cPosso escrever m\u00fasica estando numa su\u00edte do Maksoud Plaza, em Cuba, Miami ou Nova York, pois o meu Brasil j\u00e1 est\u00e1 incorporado\u201d, garantiu \u00e0 revista Vis\u00e3o. \u201cMeu Brasil \u00e9 bonito. Como diz um verso de Drummond: \u2018Meu Brasil \u00e9 no outro mundo\u2019. Ele tem bicho, tem mato, tem passarinho, o ch\u00e3o macio da floresta, ar puro, chuva, \u00e1gua limpa.\u201d O impasse seria desfeito com seu habitual humor, numa declara\u00e7\u00e3o \u00e0 revista Domingo: \u201cPretendo morrer aqui. \u00c9 mais confort\u00e1vel morrer em portugu\u00eas. Como \u00e9 que voc\u00ea vai dizer para o m\u00e9dico, em ingl\u00eas, que est\u00e1 sentindo uma dor no peito que responde na cacunda?\u201d<\/p>\n<p>Tom Jobim faleceu no dia 8 de dezembro de 1994, aos 67 anos, no Hospital Mount Sinai, em Nova York, durante a recupera\u00e7\u00e3o de uma cirurgia para a retirada de um tumor na bexiga.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, a livraria Toca do Vinicius, em Ipanema, homenageou o maestro com uma edi\u00e7\u00e3o especial de sua publica\u00e7\u00e3o, o Jornalzinho, trazendo uma colet\u00e2nea de frases emblem\u00e1ticas de Tom e outra com frases de amigos sobre sua morte publicadas na imprensa. A lista tem personagens que v\u00e3o de A, do gar\u00e7om Adelino Gomes (\u201cFoi encontrar com Vinicius l\u00e1 em cima!\u201d), a Z, do jornalista Zuenir Ventura (\u201cA sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de amputa\u00e7\u00e3o\u201d). E tamb\u00e9m o parceiro Chico Buarque (\u201cTudo que fiz at\u00e9 hoje foi para ele\u201d), o devoto Roberto Menescal (\u201cEra um deus. \u00c0 noite, pedia perd\u00e3o a ele por meus pecados\u201d) e o admirador Nelson Motta (\u201cEle era t\u00e3o universal, exatamente por ter sido t\u00e3o brasileiro\u201d), entre muitos outros. Traz ainda defini\u00e7\u00f5es do maestro pelo jornal franc\u00eas Le Monde (\u201cTesouro Nacional do Brasil\u201d) e pelo espanhol El Pa\u00eds (\u201cO grande sacerdote da beleza\u201d).<\/p>\n<p>Quem h\u00e1 de discordar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Por Pedro Paulo Malta Compositor, arranjador, maestro, pianista, cantor&#8230; e contador de hist\u00f3rias. Personagem dos mais importantes na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira, Tom Jobim completaria 90 anos hoje, se fosse vivo. 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