‘O Rei do Mau Gosto’ teve lançamento na Casa Daros prestigiado por artistas visuais

Com a presença de Guti Fraga, presidente da Fundação Nacional das Artes – Funarte, e de personalidades das artes visuais, Rubens Gerchman – O Rei do Mau Gosto foi lançado na quinta-feira (14/11), na Casa Daros, no bairro de Botafogo, no Rio. O livro integra o projeto da ONG G11, contemplado com o Prêmio ProCultura de Estímulo às Artes Visuais 2010, na categoria Pesquisa de Acervos Artísticos. Do projeto também faz parte o sítio oficial do artista, no qual está disponibilizada a publicação para acesso gratuito em formato pdf.

Ao falar ao público no auditório da Casa Daros, formado em sua maioria por artistas visuais, o presidente da Funarte, Guti Fraga, disse estar muito feliz pela recuperação do local e sua transformação em mais um espaço cultural para a cidade. Guti, que foi recebido por Isabella Rosado Nunes e Eugenio Valdés Figueroa, respectivamente diretora geral e diretor de Arte e Educação da Casa Daros, agradeceu pela acolhida ao lançamento do livro e também à ONG G11, proponente do projeto no edital MinC/Funarte. E afirmou que é uma honra para a Fundação Nacional de Artes o lançamento do livro sobre Rubens Gerchman. “O artista deixou um legado valioso à arte visual brasileira e internacional. Gerchman comentou e expressou a história recente do Brasil e nos apontou caminhos essenciais para a arte e o ensino da arte no nosso país, e concebeu e criou, ainda, a Escola de Artes Visuais, a mais representativa do país, no Parque Lage.”

Guti Fraga também mencionou os outros projetos premiados pelo ProCultura, na mesma categoria, referentes aos artistas visuais Celeida Tostes, Márcia X, Newton Cavalcante e Mario Carneiro. “É uma homenagem a estes artistas que nos deixaram e que representam segmentos fundamentais para a arte brasileira, como forma de preservar sua obra e memória, papel que cabe à instituição pública, que represento. Rubens Gerchman, como um dos seus representantes mais ativos e polêmicos, nos lembra ainda que, para compreender o valor das artes visuais, é preciso refletir, inovar e propor novas linguagens, sem deixar de reconhecer a história que lhe deu origem”, concluiu.

Na ocasião, o presidente da Funarte também transmitiu mensagem da ministra da Cultura, Marta Suplicy, na qual ela agradecia o convite para o lançamento, ao qual não pode comparecer devido a compromissos da pasta.

Em seguida, Clara Gerchman, filha de Rubens e curadora do projeto, fez breve apresentação em vídeo sobre o trabalho que, a partir da premiação pelo Ministério da Cultura e pela Funarte, permitiu a organização, catalogação, arquivamento e acondicionamento do acervo do artista visual. Ela agradeceu à Funarte pela oportunidade de realizar o trabalho, por meio da ONG G11, ideia que nasceu no ano de 2008, quando, com a morte de seu pai, ela e seus irmãos se depararam com o acervo deixado por ele – “um legado que é parte da arte brasileira”, disse Clara.  Ela explicou como começou a gestar o projeto, buscando apoio técnico e referências – contatos com artistas amigos de seu pai, com herdeiros de outros artistas, visitas a instituições para conhecer o funcionamento, cuidados e dinâmicas para manutenção de um acervo, além de contato com profissionais técnicos da área e colecionadores da obra de Gerchman.

Clara disse também que, a partir da criação do Instituto Rubens Gerchman, em 2010, houve a passagem da coleção deixada pelo artista para o acervo do Instituto. E que o Prêmio ProCultura de Estímulo às Artes Visuais “trouxe fôlego ao projeto e possibilitou o crescimento e a diversidade da equipe envolvida (pesquisadores, restauradores, arquivistas)”.

A jovem passou, então, a detalhar as etapas que possibilitaram o tratamento do acervo virgem durante 12 meses. Todo o material deixado por Rubens foi separado, organizado, higienizado, inclusive com a técnica de desinfecção por anóxia – eliminação de pragas por asfixia sem danos à integridade das obras. Foi necessária a compra de mobiliário adequado para acondicionamento desse acervo já catalogado e que se encontra, atualmente, na sede do instituto que leva o nome do artista, localizada no ateliê usado por Rubens Gerchman, adaptado fisicamente para a guarda do seu acervo.  Clara acrescentou que, hoje, o espaço transformado nessas reservas técnicas se constitui em ambientes submetidos a controle de temperatura e umidade, adequados à guarda e preservação, possibilitando a longevidade das obras.

Ela informou, ainda, que o título do livro faz referência à importante obra de Rubens Gerchman, que ilustra a capa. Disse, também, que é uma homenagem à Funarte, que nos anos 1970 editou livros de artistas brasileiros, dentre eles o próprio Gerchman, usando O Rei do Mau Gosto como ilustração da capa. “Considero esse livro íntimo e afetivo, por tratar-se de um primeiro mergulho no acervo deixado pelo artista”, disse a filha de Gerchman. Ela acrescentou que a publicação é uma oportunidade de pesquisa do acervo de seu pai, e falou sobre os eixos que permearam a edição do livro. Sobre o sítio do artista, comentou que “é um espelho” do projeto para o edital da Funarte e do trabalho feito no instituto.

O diretor do Centro de Artes Visuais da Funarte (Ceav), Xico Chaves, ao destacar a importância da recuperação do acervo de Rubens Gerchman, comentou que, no mundo todo, existe um problema em relação ao processo criativo e à produção artística.  “No Brasil, muitas obras se perderam ao longo do tempo também por falta de preservação, cuidado, abandono. E o Gerchman representa esse momento da arte, onde a gente faz a passagem do modernismo para o contemporâneo. Os anos 60-70, 50-70 são fundamentais nesse salto em que a gente assume nossa própria identidade e passa a propor mais do que consumir (arte). A gente deixa de ser antropófago para ser mais incorporador e difusor. E o Gerchman é esse período – o figurativo, o conceitual, o poético; (ele) tem o texto e é um estrategista na formulação de conceitos na área de educação e de difusão da arte. É o criador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Não fosse ele e não teríamos a Geração 80 e uma série de outras experimentações que vieram.” Xico, que trabalhou com Rubens Gerchman na EAV, falou da efervescência que viveu lá. “Eu era responsável pelos eventos e aconteceu de tudo: cinema contemporâneo, poesia contemporânea, ele estava aberto pra isso. E o trabalho dele reflete e incorpora isso de certa maneira. Se não, não teríamos esse desdobramento na Escola de uma arte fazer fronteira com as outras todas e até em romper essas fronteiras.”

O diretor do Ceav também ressaltou a importância da recuperação do legado de Gerchman para os jovens que se lançam nas artes visuais. “Esse trabalho para os jovens artistas é uma referência de como um artista vai passando pela história e vai documentando essa história. Mesmo que não seja descritivamente, narrativamente. Mas comentando e fazendo com que essa história faça parte da linguagem e dos processos de transformação da própria sociedade. O Gerchman trabalhou e incorporou muito isso. Essa coleção dele está nessa passagem dos anos 60 e 70, onde a gente deu grandes saltos.”

A diretora executiva da Funarte, Myriam Levin; o coordenador de Planejamento e Administração da Funarte, Paulo Grijó, estiveram presentes ao lançamento, prestigiado também pelo compositor e cantor Jards Macalé; as curadoras Isabel Portella, Giovanna Moriconi; os artistas Manfredo Souza Neto, Carlito Rodrigues e Sergio Santino; o poeta Armando Sousa Santos; a produtora Agnes Tompa; a cineasta Rejane Zilles, entre outras personalidades.

O livro Rubens Gerchman – O Rei do Mau Gosto foi distribuído gratuitamente a todos os que compareceram ao lançamento, na Casa Daros.

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